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sábado, 30 de abril de 2011

Pérolas da Mitologia - A Mais Antiga das Regras




Filho de Poseidon, Anqueu era um dos tripulantes daquele navio dos argonautas que empreendia a lendária viagem de Jasão em busca do velocino de ouro. Quando o timoneiro Tifis morreu inesperadamente, Aqueu foi escolhido para assumir aquele posto, pois, sendo filho do deus do mar, conhecia melhor do ninguém os mistérios da marés e das estrelas do firmamento. Assim foi que o navio Argos voltou da distante Cólquida em segurança, assumindo para sempre um lugar de destaque na galeria dos mitos imortais.

Anqueu retornou ao seu reino em Samos quando a vindima estava sendo concluída, e os enólogos do palácio deram-lhe a boa notícia que a parreira plantada por ele antes de partir, tinha produzido abundante safra e o primeiro vinho feito com ela estava pronto para ser bebido.

Para Anqueu era uma notícia especial, pois permitiria desfazer uma estranha maldição de um servo seu que, revoltado com o árduo trabalho do plantio, predisse que ele não viveria o bastante para provar o produto daquele vinhedo. Agora o vinho estava ali, na taça cheia que lhe estenderam. Com um sorriso triunfante, Anqueu ergueu-a para apreciar o belo tom sanguíneo da bebida. Depois apreciou o aroma quase selvagem daquele vinho, que lhe recordou as encostas ensolaradas de sua ilha. Então, antes de beber, mandou trazerem à sua presença aquele servo que o amaldiçoara.

“Olha, disse ele, vou engolir a tua profecia junto com este vinho” ao que o servo retrucou:

“Senhor, da taça até a boca, muita coisa pode acontecer”.

Naquele instante entrou um agricultor esbaforido gritando que um grande javali estava destruindo as plantações. Sem hesitar, Anqueu depôs a taça na mesa, apanhou sua lança e precipitou-se ao encontro do javali, para morrer minutos depois, com a femural seccionada pela presa afiada daquele animal.

Porque paraste, Anqueu? Porque trazer o escravo? Porque ir combater aquele animal? Sabias ler as estrelas e conhecias os mistérios do mar, mas ignoraste a mais antiga das regras: quando a vida encher nossa taça, bebamos. Quando essa rara bebida está servida, não é hora de acertar velhas contas nem se preocupar com os negócios. É bebê-la ou perdê-la para sempre, levando para a morte a tortura de nunca mais saber que gosto ela teria na boca.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Mitologia e os Signos - Peixes


Existem várias versões para o mito das sereias. A princípio acreditava-se que haviam apenas dois exemplares. Partênope e Lígia. Versões posteriores acrescentam Leucósia como o terceiro elemento. Uma tocava lira, outra cantava e a terceira tocava flauta. Eram jovens de uma beleza sem par e integravam o cortejo da misteriosa Perséfone. Quando Hades, o deus dos infernos raptou Perséfone, as sereias pediram aos deuses asas para que pudessem procurar sua ama em todos os lugares. Há uma versão que Deméter, a mãe de Perséfone, irada com seu rapto, subtraiu as asas das sereias e transformou-as em monstros.

Outra versão conta que Afrodite, enciumada com a beleza de suas concorrentes, transformou-as em sereias ou seja metade mulheres e da cintura para baixo peixes para que nunca pudessem vir a usufruir dos prazeres do corpo.

Como empregadas de Perséfone, agora a rainha dos infernos, as sereias estavam encarregadas de levar as almas para sua senhora. Ficavam muna ilha do Mediterrâneo aguardando a passagem de barcos com pescadores e marinheiros para depois de enfeitiçá-los com sua beleza e cânticos, as vítimas sucumbissem e, então cumpririam a missão de levar-lhes as almas.

Numa outra versão a sereia se apaixona por um jovem ingênuo. Os dois compartilhavam de mundos completamente diferentes mas para poderem ficar juntos, a sereia depois de analisar todo o sacrifício que deveria fazer propõe ao jovem algumas condições.

Este não poderia perguntar-lhe o verdadeiro nome, não poderia abrir uma caixinha dourada que a mesma guardava em seu armário e nem entrar no quarto dela numa determinada hora. Estas condições só foram respeitadas temporariamente e, transgredindo as solicitações seja por simples curiosidade seja por desrespeito, o encanto quebrou-se e os dois não puderam mais conviver juntos e a sereia partiu para sempre deixando o jovem desolado.

Cada uma das passagens apresentadas tem muitas das características das pessoas que tem a data de nascimento compreendida entre "20 de fevereiro" e "20 de março", ascendente em Peixes ou que tem Netuno como planeta importante no Mapa Natal.

Outros mitos importantes de Peixes são o de Poseidon, o de Tifão e o de Dionísio.

Características de peixes:

Secretos, misteriosos, difíceis de entender, ora alegres, ora tristes, paradoxais, enigmáticos, complexos, apresentam diversas faces para o mundo, conseguem penetrar profundamente no mundo das emoções. A emoções, no entanto quanto mais profundas muitas vezes passam a ter características nebulosas. Muitos conseguem contatar as profundezas do inconsciente. Muitos poetas, romancistas, compositores, músicos e até psicoterapêutas tem este tipo de experiência. Podem até traduzir sentimentos do inconsciente coletivo. Os piscianos são imprevisíveis e tem recursos interiores ilimitados.

Podem ter reações intempestivas, oscilarem de um extremo emocional a outro sem razão aparente. Podem ter o hábito de comerem muito e, outros, praticarem jejum para se purificarem. Tem facilidades para meditar e encontrar muitas das respostas às suas complexas questões através deste meio. Tem imaginação criativa e grande inspiração. Muitos vivem num mundo próprio, a parte, e tem dificuldades para se adaptarem ao mundo concreto das formas. Tem uma grande compaixão estendendo-se até aos animais de qualquer espécie. Tem uma grande ligação com as crianças que pode se dar através de suas fantasias como também devido a facilidade que tem de se adaptarem e de criarem.

Porém, quando se trata da educação de seus filhos tendem a delegar responsabilidade para seus cônjuges. São generosos e defendem sua prole contra qualquer animosidade externa que os ameace. Na relação amorosa não tem limites e muitas vezes assustam a pessoa amada com a imensidão de seus sentimentos sem barreiras. Podem apresentar o lado violento de suas reações emocionais que geram muitos desentendimentos. Às vezes os piscianos projetam suas emoções e conteúdos inconscientes nos outros no sentido de organizarem o mundo caótico em que vivem.

Muitas vezes projetam para se livrarem de coisas que não conseguem por outros meios. Este signo também está muito relacionado ao cinema, a fotografia, aos perfumes, ao carnaval e a todos os tipos de imagens projetadas.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Mitologia e os Signos - Aquário




Estamos na idade do bronze. Muita coisa estava acontecendo: guerras, injustiças e toda a sorte de crimes comuns e até hediondos. A vida humana era considerada miserável e dolorosa de ser vivida. Zeus então resolveu acabar com tudo julgando que nenhum homem era merecedor da proteção de quaisquer dos deuses do Olimpo.

Pensando assim, Zeus determinou que se fizesse o dilúvio. Sabendo do que estava para acontecer, Prometeu avisou a seu filho Deucalião e o orientou para construir uma grande arca. Nela seriam colocadas a esposa, os familiares e as provisões necessárias.

Choveu intensamente durante nove dias e nove noites. O planeta todo transbordava em água e a arca de Deucalião foi até o Monte Parnaso, um dos locais não invadido pelas águas. Desembarcaram em terra firme e imediatamente ofereceram um sacrifício a Zeus em agradecimento por suas vidas, aparentemente as únicas que restaram no planeta Terra. Porém a medida que as águas foram descendo, o casal entristecido via animais e pessoas mortas. Desesperados, pediram a Zeus que a raça humana fosse reconstituída.

Assim, foram orientados a jogarem pedras para trás. Cada pedra que Deucalião jogava, transformava-se em um homem e as pedras de sua esposa, em mulheres. A Terra foi então repovoada, porém pouco depois o homem voltou a apresentar os mesmos padrões de comportamento e nunca houve mais paz.

Outros mitos de Aquário: Urano e Prometeu.

Cada uma das passagens acima descritas tem muitas das características das pessoas que tem a data de nascimento compreendida entre "21 de janeiro" e "19 de fevereiro", ascendente em Aquário e que tem Saturno ou Urano como planetas importantes no Mapa Natal.

Características de Aquário:

Radical, original, intempestivo, fixa-se em idéias ou em uma ideologia, gostam de olhar o céu e contemplar o firmamento, são utópicos e podem apresentar grande dificuldade em lidar com a rotina do dia a dia, devem aprender a contemporizar, suas vidas estão sempre se remodelando e estruturas obsoletas são substituídas pelas novas, normalmente repudiam o animalesco, o primitivo, tem grande instinto civilizador num sentido gregário pois os aquarianos sentem-se confortáveis na criação de grupos. Porém, apesar de estar sempre voltado para a comunidade, para os grupos, é extremamente individualista. Muitas vezes são subtraídos de seus cargos ou do seio de uma comunidade em que representam um papel importante. Apesar de sentirem-se mutilados com a velocidade com que as coisas acontecem é porque lhes está destinada uma nova função, com novas oportunidades, novos caminhos.

Como detém em si a mudança do status-quo, são tidos como rebeldes, revolucionários e anarquistas. Muitos inventores e artistas estão em grande número dentre os aquarianos. Rompem fronteiras, não aceitam limites, buscam a verdade, são científicos e intelectuais. Tem muitas vezes uma criatividade compulsiva. Preocupam-se com a fidelidade, lealdade e confiança. A amizade lhes é importante pois é com os amigos que compartilham suas idéias. As vezes, os aquarianos tem a sensação de não pertencerem ao planeta terra ou a esta dimensão. Acham que tem uma missão mas nem sempre tem consciência de qual seja, são extremamente apegados a liberdade e defendem com tenacidade suas idéias. Pode usar de sua rebeldia para favorecer a coletividade.

É interessante pois todo trabalho desenvolvido pelo aquariano é voltado para a sociedade porém deve ser realizado de uma forma isolada. A psicologia, a assistência social o campo das invenções e até mesmo a Astrologia são campos que muito interessam a todos os aquarianos de um modo geral. É um grande questionador inclusive da autoridade alheia. Tem ânsia de expandir seus conhecimentos e divulgar amplamente suas idéias. A maioria das vezes não é compreendido por ter idéias futuristas. Igualmente importante está a sua boa vontade para com todos de um modo geral e não particular, seu amor a humanidade como um todo, a esperança no aperfeiçoamento do ser humano e a evolução da espécie. Busca a igualdade e a fraternidade. Vive o eterno dilema do ser único versus a coletividade.

Símbolo: O Aguadeiro

sábado, 22 de agosto de 2009

Pérolas da Mitologia - A Verdade é um Perigo

(Apolo e a Píton - Museu Britânico, Londres)
Ninguém gosta de receber más notícias, nem mesmo os deuses. Apolo, o deus dos oráculos, devia saber melhor do que ninguém o quanto a verdade pode doer. Ele amava Corones, uma jovem princesa de Tessália, mas ela gostava de outro, um simples mortal, com que se encontrava às escondidas. Desconfiado, Apolo mandou o corvo, um de seus auxiliares alados, vigiar de perto a faceira princesinha. Pobre corvo. Quando veio relatar os encontros furtivos de Corones, Apolo ficou furioso e resolveu castigá-lo, mudando a cor de suas asas, branca como a neve, para o preto que os corvos usam até hoje.
Muitos reis e tiranos do passado agiram como Apolo, punindo o mensageiro por causa do teor da mensagem. Plutarco conta que, durante a campanha do comandante romano Lúculo, contra alguns reinos da Ásia, quando sua legião entrou na Armênia, os postos avançados desta mandaram avisar ao rei local que as forças romanas se aproximavam. O rei Tigranes ficou tão enfurecido que mandou decapitar o mensageiro, fazendo com que, a partir daí, ninguém ousou contar-lh coisa alguma. Enquanto os romanos apertavam o cerco, Tigranes continuava inerte, sem ter a menor idéia do que estava acontecendo, ouvindo apenas a voz de seus bajuladores, que lhe diziam que Lúculo já devia estar voltando para Roma, atemorizado com a força do exército romeno - até que o amigo favorito do rei tomou coragem para anunciar-lhe que a derrota era iminente, como de fato aconteceu.
Pior fez Côtis, um certo rei da Trácia, dissoluto e beberrão, que meteu na cabeça que haveria de passar uma noite de amor com a deusa Atena, uma das deusas virgens do Olimpo. Para uma ocasião tão importante, preparou um banquete numa mesa luxuosíssima, numa alcova ricamente decorada, no centro da qual dispôs uma cama com lençóis e travesseiros dignos da ilustre convidada. Depois de tudo preparado, Côtis se pôs a beber vinho, aguardando a chegada de Atena. Como o tempo passasse e nada da deusa aparecer, mandou um guarde verificar se ela não tinha se perdido nos corredores do palácio. Quando o guardo retornou dizendo que não havia ninguém, o rei o matou ali mesmo.
Mais tempo se passou e Côtis mandou um segundo guarda, e a cena se repetiu. Quando mandou o terceiro guarda, este, apavorado com o que acontecera com seus colegas, voltou dizendo que a deusa estava chegando ao palácio, pois sofrera um pequeno atraso, dito o quê, fugiu para o mais longe possível.

Dessas três estórias, tiramos pelo menos duas lições: se fores o destinatário, nada que fizeres poderá alterar o conteúdo da mensagem. Mas se fores o mensageiro, lembra-te do antigo provérbio árabe: quando fores dizer a verdade, deixa o teu cavalo pronto e fique com um pé no estribo.

Pérolas da Mitologia - A Estrada de Atenas

(As façanhas de Teseu, Museu Britânico, Londres)
Teseu era pouco mais que adolescente quando soube que era filho do rei de Atenas. Despediu-se, então, da mãe e do avô, com os quais vivia, dizendo-lhes que precisava conhecer seu pai. A mãe, que já esperava por esse dia, recomendou-lhe que viajasse pelo mar, pois o caminho terrestre para Atenas era cheio de bandidos sanguinários. Porém, o jovem Teseu, que muito admirava Hércules, que no passado muito havia se confrontado com aqueles bandidos, recusou a indigna segurança do mar e preferiu lançar-se pela estrada afora, resolvido a não fazer mal a quem quer que fosse, mas se defenderia contra os que tomassem a iniciativa da violência.
Ora, assim que inicou o percurso já se defrontou com o cruel Perifetes, que costumava esmigalhar o crânio dos infelizes com uma clava de bronze. Teseu o desarmou e aplicou-lhe na testa um golpe com aquela arma terrível, adotando-a para si. Em seguida foi a vez do do gigantesco Sínis, que se divertia em amarrar os pés da vítima a dois pinheiros vergados até o chão, para em seguida soltá-los de chofre, rasgando-a em dois pedaços. Depois foi Círon, cujos pés os viajantes eram obrigados a lavar tremendo de pavor, enquanto ele os empurrava pela borda do penhasco até o mar, onde eram devorados por uma tartaruga gigantesca. Mais adiante foi Procusto, sinistro estalajadeiro que amarrava os hóspedes durante o sono para adequá-los ao tamanho do leito: os que eram menor do que a cama, ele os estirava com cordas e roldanas; quando eram maiores, ele cortava as partes excedentes a golpes de machado. Teseu foi implacável com eles, submetendo cada um à tortura que infligia às vítimas.

Ali Teseu inicou sua carreira de sábio governante, defensor do bem e da justiça. Sabia que amar seu semelhante nunca significou inocentá-lo de seus crimes, atribuindo toda a culpa ao mundo ao seu redor. Conhecendo bem demais o lado escuro da natureza humana, não acreditava que o mal seria um dia extirpado, quando a sociedade fosse melhor. O mal está lá, onde sempre esteve, à nossa espreita, nas curvas dessa longa estrada da vida, e nosso dever é enfrentá-lo.

Pérolas da Mitologia - Momento Mágico

(Afrodite de Knidos, Praxiteles - Museu do Vaticano - Galeria das estátuas)
Frinéia, uma simples cortesã, galgou a galeria dos personagens inesquecíveis do antigo mundo grego, ao lado de filósofos, poetas e grandes estadistas. Ela era especial, pois, ao contrário das outras, que passeavam com túnicas transparentes para mostrar os detalhes do corpo, Frinéia usava um manto comum para manter sua beleza escondida dos olhares indiscretos. A ninguém, a não ser para os íntimos, mostrava seus braços ou seus ombros magníficos, e jamais frequentou os banhos públicos, hábito tão em voga naquela época. Mas um dia, durante as grandes festas dedicadas a Posêidon, diante de milhares de participantes vindos de todos os pontos da Grécia, ela avançou no meio da multidão reunida junto à praia e ali, no ponto em que o mar encontra a areia, sem dizer palavra, deixou cair o manto a seus pés e entrou lentamente na água, completamente nua, a não ser pelos longos cabelos soltos que caiam até os quadris. Entre os espectadores maravilhados, estava Praxíteles, o mestre escultor de Atenas, que imortalizou aquela visão quase divina ao trasnspor as formas de Frinéia para o mármore polido da famosa estátua de Afrodite, tornando-se o primeiro escultor a desnudar completamente o corpo da mulher.
Antes dele, tanto as deusas como as simples mortais apareciam sempre vestidas e os artistas mais ousados se limitavam a representá-las usando vestes molhadas, coladas ao corpo, para realçar suas formas. Praxíteles, com sua Afrodite, inspirado em Frinéia, fixou o modelo quase definitivo de nu feminino na arte ocidental, o da vênus pudica, ou seja, da mulher que tenta esconder sua nudez ao ser surpreendida sem roupa. Mais tarde, numa variante do que fez o escultor, encontramos no "Nascimento de Vênus", do pintor Boticelli, em que Vênus(como Afrodite era chamada pelos romanos), cruza um braço à sua frente para ocultar os seios, enquanto mantém o outro baixo, de modo a deixar sua mão escondendo o púbis, numa atitude que, como se vê, atrai nosso olhar exatamente para os pontos que estão sendo escondidos.
Não foi por acaso que a posteridade elegeu a Afrodite de Praxíteles como o símbolo do pudor, esse ingrediente indispensável para existir o erotismo. Afinal, ela era a deusa do amor e devia entender muito bem que sem a luz não existe sombra, e que, sem esse jogo tão feminino de esconder o que depois vai mostrar, todos nós - homens e mulheres - não conheceríamos aquele momento mágico de transgressão e de vertigem em que o manto de Frinéia finalmente cai no chão.

Pérolas da Mitologia - Corpo e Alma

(Eros e Psique - Casanova, Museu do Louvre, Paris)
Mesmo aqueles que não acreditam nesse indefinível sentimento que é o amor, não poderão deixar de apreciar a magnífica obra de Antonio Casanova denominada "Eros desperta Psiqué com um beijo". Aquele artista soube extrair da pedra fria, com rara maestria, um daqueles raros momentos em que o tema se encontra com a forma e a intenção, para criar uma obra que jamais nos deixará indiferentes.
O escultor acertou ao escolher um mito como motivo, agradando assim a gregos e troianos, e, além disso, também cativou aos que vêem no amor uma realidade mais profunda, que não se deixa capturar pelas malhas da razão. Segundo, porque acertou igualmente escolhendo tal mito, que narra os encontros e desencontros e até o final feliz - coisa tão rara - de dois encantadores personagens: Eros, o deus do amor, filho de Afrodite, e Psiqué, belíssima princesa, cujo nome também significa alma (não por acaso) na língua grega.
Os dois casam secretamente e vivem felizes, mas o deus só vem encontrá-la depois que as luzes se apagam, pois ela não podia saber quem ele era.Psiqué concordou com isso, mas, certa noite, vencida pela curiosidade, espera que ele adormeça e acende uma vela. Maravilhada com o que descobriu, deixa cair uma gota de cera quente no ombro dele. Ela rompeu o trato e Eros, magoado, se afasta, disposto a não vê-la nunca mais. Psiqué arrependida, vaga pelos caminhos procurando em vão encontrá-lo. Temendo que pudesse encontrar Eros, Afrodite atraiu a princesa para uma armadilha que a prostrou num sono mortal. Foi quando os deuses, que viam o casal com simpatia, avisaram Eros do acontecido. Então Eros desceu até onde ela estava e a despertou com um beijo salvador.

Foi essa a cena que o cinzel do escultor eternizou em mármore: Eros, com as asas ainda abertas, parece ter descido do céu naquele instante,, enquanto Psiqué, de olhos cerrados, enlaça-o com delicadeza e ergue o rosto para oferecer-lhe os lábios. Os corpos são magistralmente modelados de sorte a não permitir que nosso olhar se afaste das duas cabeças que se aproximam,naquele momento culminante de todas as histórias de amor, em que as duas bocas estão a ponto de se unirem. O artista conseguiu fixar toda a magia do beijo, ao mesmo tempo em que põem em contato o corpo e alma de duas pessoas, permitindo que elas troquem entre si a ternura, o desejo e a paixão que sentem reciprocamente. Às vezes, a tudo isso ainda vem se somar o amor, algo que não sabemos definir, mas que sabemos reconhecer quando aparece - ou quando simplesmente se acaba.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Pérolas da mitologia - Segredos de mulher

(O nascimento de Venus - Botticelli - Galleria degli Uffizi, Firenze)
A mais bela das deusas, Afrodite, era odiada pelas outras deusas desde o momento em que colocou seus pés no Olimpo. Ela surgiu toda nua, do meio da espuma das ondas do mar, numa grande concha nacarada que o vento carregou até a costa de Chipre. Ali foi acolhida alegremente pelas Horas, divindades benfazejas, que a vestiram, pentearam e enfeitaram. Um carro puxado por pombos levou-a até o Olimpo, onde chegou sob aplausos dos deuses. Eles ficaram tão atraídos por sua beleza e sensualidade, que não houve um só deles que não começasse a pensar num modo de possuí-la. Percebendo o desejo deles, as deusas passaram a odiá-la com todas as forças que tinham.
Para evitar confusão, Zeus a casou com Hefesto, o ferreiro divino. Mas logo surgiu um relacionamento secreto entre ela e Ares, o deus da guerra. O marido só ficou sabendo quando Hélio, o deus do sol, que tudo via lá do céu, contou-lhe sobre o que os dois faziam na sua ausência. Hefesto decidiu vingar-se usando suas habilidades inigualáveis de artesão. Teceu uma rede finíssima como a da aranha, mas tão resistente quanto o próprio diamante, e com ela montou uma armadilha no teto do quarto, por sobre o próprio leito conjugal, que também era usado pelos amantes. Depois anunciou à esposa que precisava viajar, demorando-se por alguns dias fora de casa. A presa caiu no laço: Ares veio ter com Afrodite, e os dois, levados pelas asas do desejo, correram para a cama e para sua própria perdição. A rede caiu sobre eles e deixou-os completamente imobilizados, presos uma ao outro no abraço proibido. Hefesto, que observava escondido, surgiu então junto ao leito, rubro de cólera, e se pôs, em altos brados, a conclamar os imortais para que viessem testemunhar o ridículo da cena. Todos os deuses acorreram, felizes pela chance de contemplarem, à vontade, a nudez de Afrodite, que ardia de vergonha. Mas as deusas não vieram. Embora detestassem a rival, nenhuma quis participar daquela cena constrangedora.
Porque as deusas não se entregaram às delícias da schadenfreude, palavra alemã que expressa aquela doce alegria pelo sofrimento dos inimigos. Ninguém sabe. Homero sugere que elas pouparam Afrodite por causa do pudor natural de seu sexo. É provável que as próprias deusas não saibam explicar por que não foram lá. As mulheres sabem coisas dos homens que eles mesmos ignoram. Mas também é certo que elas não detém a chave dos próprios segredos. Elas também não sabem tudo. Vale para elas o que disse Heródoto a propósito da Esfinge: os enigmas do antigo Egito eram enigmas também para os próprios egípcios.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Pérolas da mitologia - Povos diferentes

(Amazona Ferida, Fidias - Museus Capitolinos - Roma)
Desde que essa estória foi gestada há mais de 2500 anos atrás, na velha Grécia, pouca coisa mudou entre homens e mulheres. Consta que os gregos derrotaram as ferozes Amazonas, tribo que formou o maior matriarcado de que tem notícia na história. No trajeto, elas se amotinaram e jogaram a tripulação grega no mar. Como não sabiam navegar, ficaram à deriva no mar, ao sabor do vento, até que a correnteza as levou às praias da selvagem Cítia. Ali elas se apropriaram de cavalos e começaram a pilhar o interior daquele país.
No começo, os citas ficaram perplexos. Não sabiam quem eram aqueles guerreiros cuja fala não conheciam e também sua maneira de vestir. Contudo, após o primeiro confronto, examinando um cadáver observaram que eram mulheres. Então decidiram que valia a pena ter filhos com aquelas valorosas guerreiras. Para isso, mandaram que os solteiros fosse, acampar perto delas e as observassem em tudo, porém sem hostilizá-las em nada. Feito isso, quando elas atacavam, eles recuavam, sem luta, para convencê-las de suas intenções pacíficas. Admirando-os pelo valor que tinham demonstrado em combate e admirando-os pela atitude amistosa agora, elas deixaram os jovens citas ficarem onde estavam acampados. Sendo homens e mulheres, não é preciso dizer que a distância entre os dois acampamentos foi encurtando a cada novo dia.
No final de cada dia, elas passaram a se afastar do acampamento, sozinhas ou aos pares, a fim de cumprirem o que a natureza manda. Os citas fizeram o mesmo. Quando um deles encontrou o outro na beira do rio, o inevitável aconteceu, para alegria de ambos. Depois ela avisou, por meio de sinais, que voltaria no dia seguinte com uma amiga, e que ele fizesse o mesmo. Em pouco tempo todos formavam casais. O passo seguinte foi unir os acampamentos, passando a morarem juntos.
Os homens(como até hoje), não conseguiram aprender a língua das mulheres, enquanto elas rapidamente passaram a entênde-los.
Quando eles propuseram que elas fossem morar com eles junto ao seu povo, elas recusaram: "Gostamos de caçar e cavalgar livremente.Jamais viveremos como as mulheres citas, que passam seus dias ocupadas com afazeres domésticos. Se querem ficar conosco, vamos nós, todos juntos, achar um lugar para começar vida nova".
Os jovens concordaram e todos levantaram acampamento e viajaram para muito longe, para o norte, onde se tornaram a tribo dos Sauromatas, cujas mulheres nunca deixaram de cavalgar e lutar ao lado de seus homens, provando que o segredo da harmonia entre os sexos é o gosto por essa estranheza recíproca e a aceitação de que existe uma ignorância entre eles que nunca será superada, pois são povos diferentes.

Pérolas da Miologia - O indispensável mistério

(Eros Centocelle, Pompéia)
A filha de um antigo rei grego era tão bela que seus admiradores começaram a compará-la com a própria Afrodite. Enciumada, essa deusa ( os deuses da mitologia grega só eram diferentes dos mortais no poder que tinham e na sua imortalidade - em tudo o mais tinham as virtudes e os defeitos que encontramos entre os mortais: daí o ciumes de Afrodite) mandou seu filho, Eros, deus do amor e da paixão, flechar o coração daquela moça para fazê-la enamorar-se do homem mais feio do mundo. Eros bem que tentou mas apaixonou-se no momento que a viu, provando pela primeira vez, o doce veneno de suas próprias setas. A bela jovem chamava-se Psiquê, o mesmo nome que os gregos davam à borboleta e à impalpável alma humana.
Era tão bela que ninguém ousava candidatar-se à sua mão. Alarmados , os pais dela foram perguntar ao oráculo Delfos se um dia ela casar-se-ia. O oráculo foi claro: deveriam deixá-la , vestida de noiva, ao pé de certo rochedo, onde seu futuro marido iria buscá-la e que ele não seria um simples mortal.Os pais, que não ousaram contraria a voz sagrada de Delfos, deixaram Psiquê no local indicado, onde ela adormeceu. Um vento misterioso então a transportou para um rico palácio no alto do monte, onde ela foi banhada e penteada por mãos invisíveis. "À noite," disse-lha uma voz sem dono, "teu marido chegará". E assim foi: na escuridão absoluta, ela não viu quando Eros se aproximou. Apenas sentiu que alguém deitava ao seu lado, no fresco leito nupcial, abraçando-a com tanto carinho e paixão que ela perdeu todo o receio que tinha e deixou o prazer dominá-la. E assim, noite após noite, no decorrer dos meses, ela o recebeu em seus braços, sentindo-se cada vez mais enamorada daquele desconhecido que sempre partia bem antes do sol nascer.
Um dia percebeu que estava grávida. Criou coragem e pediu que ele se mostrasse. Foi em vão: "Se tu me vires, eu nunca mais voltarei" , disse ele. Mas ela estava decidida: numa noite em que ele dormia a seu lado, acendeu um candeeiro que iluminou todo o leito. Como já suspeitava, seu marido era um deus, o próprio Eros em pessoa, belo como devia ser um filho de Afrodite. A forte luz da candeia, porém, despertou Eros. Ele a olhou com mágoa e desapontamento, considerando-se traído, afastou-se em silêncio.
Essa história teve um final bonito: depois de muitos infortúnios, os dois enamorados acabaram vivendo felizes, juntamente com sua filha Voluptas. Psiquê tinha aprendido a lição: quem ama - e quer que isso dure - deve aceitar que o outro preserve um pouco de seu segredo, assim como aceitamos que a Lua tenha uma face brilhante e outra que nunca veremos. Afinal, é nas trevas do mistério que ela, a alma, ainda se encontra com Eros, a paixão, para que nasça, a cada noite, a indispensável volúpia.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Pérolas da Mitologia - O ser humano é diferente

Quando os deuses resolveram povoar este mundo, moldaram todos os animais com fogo e com argila, encarregando os titãs Prometeu e Epimeteu de equipá-los com o necessário para a vida de cada um. Epimeteu pôs mãos à obra e deu corpulência a uns, agilidade a outros, para uns deu garras e chifres, para outros não deu armas, mas dotou-os de asas ou pernas velozes para fugir; de uns fez predadores e de outros fez presas, mas deu a estes a benção de uma prole numerosa, para que nenhuma espécie viesse a ser extinta. Quando, notou que tinha esquecido o homem, que ali quedava nu, desarmado e indefeso. Para que ele sobrevivesse, Prometeu roubou dos deuses o fogo e a misteriosa arte de domá-lo.
Desprovido de escama, penas, concha ou pele espessa, o homem é o único animal de toda a criação, que se veste com o despojo dos outros. Quando chega a este mundo só sabe chorar e gemer, precisando ficar enrolado em paninhos, tolhido, por vários meses, ao passo que um pinto já anda solto pelo terreiro no dia em que rompe a casca do ovo. No início apenas chora, mas quando saberá caminhar, falar. Quando terá forças para mastigar o que come? Os outros animais já nascem com o instinto de sua espécie: uns correm, outros voam, outros ainda nadam, mas o homem não sabe coisa alguma que não tenha que apreender a duras penas - o único dom natural que recebeu foi chorar - talvez pelo simples fato de ter nascido.
No entanto, é essa ínfima criatura que irá comandar as demais, porque ele é diferente. De todos os seres, o homem é o único que conhece o luto e o riso, que procura o prazer de todas as formas e por todas as parte de seu corpo, que sofre com a ambição da riqueza e com a brevidade da vida, que se preocupa com a morte e até com o que vai acontecer depois que ele morrer. Mas, acima de tudo, é o único que não se conforma com o impiedoso ciclo animal, onde os mais fracos são aniquilados. Paradoxalmente a espécie humana começou a tornar-se a mais forte de todas somente quando começou a atrasar o seu passo para ajudar os retardatários na savana,
quando sentiu que devia carregar os feridos, proteger as crias abandonadas e dividir o alimento com os que não tinham ou que não podiam caçar - quando, em suma, assumiu que a fraqueza do outro era sua fraqueza também. A solidariedade, portanto, foi a força que fez o homem diferente das demais espécies deste planeta.

Pérolas da Mitologia (Por Claudio Moreno)

Se os heróis da mitologia fossem hoje recebidos no aeroporto, nenhum deles mereceria mais aplausos do que Prometeu, a quem devemos mais do que imaginamos. Sem ele não teríamos o fogo, que ele roubou aos deuses para nos dar de presente, pelo que tornou-se alvo da cólera divina.
O poeta Hesíodo, autor da versão mais famosa desse mito, conta que Zeus ficou tão furioso que resolveu punir exemplarmente os envolvidos naquele roubo. Para castigar Prometeu resolveu acorrentá-lo num rochedo e mandou que uma águia viesse devorar-lhe o fígado, que se renovava todos os dias (portanto os gregos antigos, já sabiam que o fígado é o único órgão do corpo humano capaz de regenerar uma parte perdida ).Para castigar os homens, recorreu ao expediente mais sutil, mas igualmente terrível, de criar a primeira mulher.
Embora Hesíodo descreva isso como vingança, o capricho com que Zeus desenhou e executou o projeto da mulher sugerem que o poeta , cego pelos seus preconceitos, não percebeu o orgulho que o rei dos deuses sentia pela obra que estava criando. Primeiro, ele ordenou a Hefesto, o artesão divino, que moldasse, na mesma argila usada para o homem, mas diferente: onde o homem era forte ela seria fraca, onde o homem era tolo ela seria sábia, onde o home era duro ela seria macia, onde o homem era ousado ela seria tímida, mas onde o homem tivesse medo ela teria coragem. Depois chamou todos os deuses para ajudá-lo, pedindo-lhes que dotassem a nova criatura com o melhor e o pior de si mesmos. Afrodite deu-lhe a graça e a beleza, mas também a vaidade; Atena deu-lhe habilidade com as mãos, mas também a curiosidade perigosa; Hermes deu-lhe o dom da persuasão, mas também a ensinou a enganar com as palavras e, assim por diante. Como se tratava de um presente que todos os deuses faziam ao homem, chamaram-na de Pandora, que em grega significa "a que tem todas as dádivas".
Com ela nasce o sexo feminino, mais fraco e delicado, de uma fragilidade que contrasta com a ação enérgica e decidida do sexo masculino: o homem caça, faz a guerra, derruba as muralhas de Tróia, derrota os persas e abate o leão de Neméia, enquanto ela canta diante do tear e espera que ele volte para casa. Dir-se-ia que tudo estava no lugar e não havia dúvida quanto ao papel de cada um - até que um dia ela tem um filho - e toda a falsidade daquele quadro vem à tona. Já no parto o homem fica desconcertado ao ver a força espantosa que sua frágil companheira consegue mobilizar, aceitando a dor e o cansaço num nível que seria insurpotável até para o mais rude guerreiro. Depois, à cabeceira de um filho doente, ele assiste, com respeito e admiração, àquela luta titânica que só as mães conseguem travar, noite após noite, contra o inimigo invisível e traiçoeiro que ronda o berço com suas asas negras. Então, com toda a humildade o homem compreende qual dos dois é, na verdade, o sexo forte, e agradece a Zeus pelo maravilhoso presente que recebeu.

Pérolas da Mitologia - Não me devem nada

A donzela guerreira Atalanta, teve uma infância infeliz como tiveram quase todos os heróis da mitologia grega. Quando ela nasceu, o rei Iasos, que precisava de um filho varão, foi aconselhado pelo oráculo a abandoná-la nas matas da vizinhança. Como sempre acontece, o servo encarregado daquela tarefa se apiedou da criança e a depôs no interior de uma caverna, implorando à deusa dos bosques, Artêmis, que protegesse a pequenina.
O auxílio veio na forma de uma ursa que recém havia perdido seus filhotes. Encontrando a bebezinha na sua caverna, por instinto, começou a amamentá-la e protegê-la. Alguns meses depois um caçador descobriu a criança naquela caverna e a resgatou, levando-a para sua casa e deu-lhe o nome de Atalanta. O tempo a transformou numa bela mulher, que vivia ao sol correndo pelos montes e pelos campos com seu arco e sua lança, exatamente como sua deusa protetora, Artêmis. Vestida com uma túnica muito curta, presa num só ombro, deixando livre seus movimentos e pouco escondia seu corpo ágil e flexível. Os que viam a virgem caçadora, ficavam extasiados com a sua beleza selvagem. Mas o temor de suas armas mantinha todos à distância.
Sua glória ocorreu na grande caçada ao javali gigante que devastava lavouras e aldeias da redondeza. A caçada atraiu jovens de toda a Grécia, fascinados pela chance de conquistarem honra e renome.
Ao final, quem abateu a fera foi Atalanta, que feriu mortalmente o animal com uma de suas flechas, conquistando o troféu tão desejado.
Ao saber dessa façanha, o rei Iaso chamou-a à sua presença e quis saber de onde ela viera. Os indícios eram eloquentes e o rei reconheceu em Atalanta a sua filha que julgava morta. Abraçando-a com orgulho, contou-lhe seu nascimento e lamentou não ter tido, na ocasião, coragem de contrariar a recomendação do oráculo. Ela também o abraçou, pois tinha sonhado com aquele momento e não ia estragá-lo com queixumes e cobranças de um tempo tão distante.
Não ia cobrar agora o que seu pai não lhe dera vinte anos atrás. Ele não devia nada. Iam recomeçar do zero e tratar de ser felizes.
Atalanta antecipava, assim, o que Epíteto viria a escrever: a pessoa comum culpa o outro por tudo o que lhe sai errado; o noviço em filosofia culpa sempre a si mesmo; o sábio, esse não culpa nem um, nem outro.

Pérolas da Mitologia - O sorriso do neném

Durante muito tempo o governo de Corinto esteve nas mãos de uma mesma família. Os Báquidas se apresentavam como descendentes do deus Baco. Para não arriscar o seu poder, sempre casavam com membros da própria família. Um dia, uma de suas filhas, Labda, feia demais para atrair um de seus primos, acabou casando com um jovem que não pertencia ao clã. O marido, ansioso por um herdeiro, consultou o oráculo Delfos, que previu para ele um filho em breve. Tal filho tomaria o lugar dos atuais governantes, iniciando uma nova era para Corinto.
Os Báquidas, descobrindo a profecia, decidiram agir assim que o parto de Labda ocorresse.
Quando o menino nasceu, sortearam dez entre eles e os enviaram à casa de Labda para matá-lo. Chegando lá pediram para vê-lo. Labda, desconhecendo o motivo daquela visita, foi buscar orgulhosa o filhinho, depositando-o nos braços de um deles. Ora, eles decidiram, no caminho, que executaria a missão aquele a quem ela primeiro entregasse a criança.
Naquele momento, porém, o menino abriu um largo sorriso para seu matador, que ficou tão enternecido que não teve coragem de executar a ordem, passando-o ao companheiro ao lado, e êste ao outro, e assim por diante, sem que nenhum teve coragem de cumprir a missão.
Vencidos por um sorriso, devolveram a criança à mãe e saíram constrangidos, acusando-se mutuamente de fraqueza e covardia.
Após muita discussão, decidiram todos voltar e executarem a tarefa em conjunto. Acontece que Labda ouviu toda aquela discussão e teve tempo de esconder o menino numa tulha, onde não conseguiram encontrá-lo. Então aquela turma resolveu dizer ao rei que mataram a criança.
De onde vem essa estranha força do sorriso inocente que salvou a vida de Cípselo, o filhinho de Labda e futuro rei de Corinto? A ciência diz que é um comportamento natural, impresso no cérebro dos pequeninos humanos pela infinita sabedoria da espécie. Trata-se de um mecanismo de sobrevivência, destinado a cativar a mãe e garantir o apego dos mais próximos, para assegurar que o bebê terá os cuidados necessários. Pressentimos, no entanto, que tal sorriso misterioso, que faz todos sorrirem junto, despertando em cada um o que tem de bondade de ternura, , não está ali para salvar somente o bebê, mas também a todos nós. Ele ri como se tivesse um segredo feliz para compartilhar conosco, como se quisesse nos lembrar de alguma coisa importante que estamos esquecendo: que esta vida é preciosa e vale cada minuto.

Pérolas da Mitologia - Pais e Filhos

Este é o tema central da cena magistral que Homero escolheu para encerrar sua Ilíada. No mais famoso confronto da Guerra de Tróia, quiçá de toda história da humanidade, Aquiles, filho de uma deusa com um mortal, o maior guerreiro de todos os tempos, venceu facilmente o mais valoroso dos troianos, que era Heitor, filho de Príamo, rei de Tróia.
Não satisfeito em matá-lo, Aquiles amarrou o corpo de Heitor no seu carro e o arrastou pelo pó da planície até o acampamento grego, onde o deixou insepulto para ser devorado pelos cães famintos que rondavam o campo de batalha.
Do alto das muralhas os troianos assistiram estarrecidos seu herói ser morto por Aquiles, mas ninguém se desesperou mais do que seu pai, o velho rei Príamo, por não poder dar ao seu filho um digno funeral.
No Olimpo os deuses também se indignaram com o triste fim de Heitor, pois ele era um homem justo, um grande guerreiro e não merecia esse derradeiro ultraje. A uma ordem de Zeus, o cadáver do herói foi coberto por um bálsamo divino que impedia a putrefação. Íris a deusa mensageira, foi sugerir a Príamo que oferecesse um rico resgate pelo corpo, como era costume entre os gregos, enquanto a deusa Tétis, mãe de Aquiles, foi até sua tenda para convence-lo a devolver Heitor à sua família.
Príamo deixou a cidade e dirigiu-se à noite até o acampamento grego, com uma carreta pesada de riquezas. Hermes, o deus dos caminhos, guiou-o na escuridão até o campo inimigo. Lá, o deus adormeceu os guardas e o carro pode passar desapercebido, deixando Príamo frente à tenda de Aquiles. Este surpreendeu-se quando o velho rei surgiu da noite e arrojou-se ao solo, à sua frente, e beijou-lhe suplicante, a mesma mão que ceifara a vida de seu valoroso filho: " Dá o meu Heitor de volta, Aquiles! Pensa no teu pai, que também deve ter cabelos brancos e deve te amar como eu amei meu filho!"
Ouvindo essas palavras, Aquiles lembrou com tristeza que seu pai, o velho Peleu, devia estar de longe, lá na Grécia, esperando seu retorno, sem saber que seu oráculo havia predito que ele não voltaria de Tróia.
Comovido, ele retirou mansamente a sua mão das mãos de Príamo, e os dois, frente a frente, unidos pelo mesmo sentimento de dor e solidão, irromperam num pranto comum que veio encher a imensidão daquela noite com os seus soluços, não mais como dois inimigos, mas como dois simples homens que choravam a infinita saudade de todos os pais e de todos os filhos que nunca mais vão se ver.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Pérolas da Mitologia - Mães e Pais

Os estudiosos dizem que as Amazonas nunca existiram. Tudo indica que fazem parte do imaginário grego, tão fantásticas como a quimera, a esfinge e os centauros.
Mas o mito das Amazonas foi importante para os gregos, pois representava o oposto de tudo o que eles valorizavam como traços indispensáveis para uma vida civilizada. Elas formavam uma sociedade exclusivamente feminina, constituindo o mais rigoroso matriarcado jamais imaginado. Uma vez ao ano, e sempre no escuro para não serem reconhecidas, elas acasalavam com homens escolhidos a dedo, capturados na vizinhança. As meninas que nasciam eram criadas para serem belicosas como as mães. Já os meninos eram eliminados após o parto.
Para os gregos, portanto, que associavam o mundo feminino ao lar e à família, as Amazonas representavam o inverso do que eles consideravam normal. Não foi por acaso que grandes heróis, como Hércules e Teseu, tiveram de enfrentá-las e, como era de esperar, derrotá-las simbolicamente.
Na eterna e estimulante discussão sobre os papéis do homem e da mulher, aquelas guerreiras obstinadas merecem o mesmo repúdio que recebem hoje os machistas empedernidos. Uma sociedade unilateral e cruel como a delas, sempre estará fadada a fracassar na tarefa básica de se perpetuar pela descendência. Elas sabiam como produzir um bebê, mas duvida-se que soubessem transformá-lo num bom adulto, sem o esforço conjunto do masculino e do feminino. Isso porque é em contato com as figuras de um pai e de uma mãe que a criança vai conhecer duas formas de amar e ser amada, duas formas de linguagem, duas formas de conhecimento - formas bem distintas uma da outra, mas riquíssimas na soma de suas contribuições.A metáfora da casa é conhecida, mas nem por isso perde o valor: a mãe dá o chão, a terra, a ligação com os ciclos da natureza e com todas as formas de vida. O pai, por sua vez, fornece as paredes e o telhado, criando um espaço protegido e limitado onde essa vida vai crescer livremente até estar suficientemente preparada para se aventurar no mundo lá fora. Somente então o ciclo estará completo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Pérolas da Mitologia - Entre mulheres

A incrível mitologia grega fala de muitas noras que sofreram hostilidades por parte de suas sogras, como foi o caso da pobre princesa que casou com Eros, o deus do amor, filho de Afrodite.
Segundo consta, a deusa andava muito enciumada com o rumor de que uma simples mortal, Psiquê, que era tão bela quanto ela, e mandou que Eros inspirasse na mocinha uma paixão fulminante pelo homem mais feio que encontrasse. Ora, como era de esperar, quem ficou apaixonado pela moça foi o próprio Eros, que acabou casando com ela escondido. Como não podia revelar sua natureza divina à amada, estipulou uma única e decisiva condição: ela nunca poderia ver o seu rosto. Ele viria ter com ela todas as noites, em plena escuridão, e deixaria o leito antes de romper o dia.
Assim viveram alguns meses - as cegas, mas felizes - até que certa noite, após Eros adormecer, Psiqué, morta de curiosidade, acendeu uma lamparina, ficando maravilhada ao ver quem ele era. Por descuido deixou cair uma gota de óleo fervente sobre o ombro do marido. Sofrendo mais com a decepção do que com a dor, Eros disse que ela traíra sua confiança e, por isso, terminava ali o casamento. Batendo asas desapareceu nos céus e foi se refugiar num canto esquecido do palácio de Afrodite, que ainda não sabia de nada.
Psiqué desesperada, saiu pelo mundo a procurar por ele, para pedir perdão e explicar - naquela maneira doce como a esposa fala com o esposo - que ela nada fizera além de ceder à curiosidade natural que todos têm pela pessoa amada.
Nesse meio tempo Afrodite se inteirou do ocorrido e mandou chamá-la à sua presença: queria conhecer aquela criatura desprezível que estava fazendo seu filho sofrer. Frente ao semblante terrível da sogra, Psiqué com os olhos no chão, ainda teve a coragem de reafirmar seu amor por Eros e o desejo de esclarecer o incidente. A ardilosa Afrodite, fingindo buscar uma reparação, entregou-lhe uma caixinha de âmbar e deu-lhe a missão de ir até Perséfone, a rainha do mundo dos mortos, para pedir um pouco de seu creme mágico, alegando que a tensão daquele episódio tinha diminuído o frescor de sua beleza.
Era uma armadilha fatal: ao voltar para o mundo dos vivos com a encomenda da sogra, viu-se refletida na água clara de uma fonte e se achou feia e insignificante. Pensou; "É injusto que as deusas usem esse creme milagroso, enquanto estou aqui desfigurada." Como Afrodite previu, abriu a pequena caixa de onde saiu o frio sono da morte.
Esse teria sido o triste fim desta estória se Zeus, por justiça, não a tivesse ressuscitado , permitindo que vivesse para sempre ao lado do marido. E para este, que ficara perplexo com o comportamento da mãe e da esposa, o senhor do Olimpo acrescentou: "Não tentes entender o que acontece entre elas. Nós, os homens, passamos a vida a olhar para as mulheres, ao passo que elas ficam a olhar a si mesmas e às outras."

Pérolas da Mitologia - Como é difícil o diálogo

Olha só, na Grécia antiga costumavam dividir a humanidade em duas facções distintas e irreconciliáveis: os gregos, com sua língua e cultura superiores e, na outra parte, os bárbaros com seus costumes semi-selvagens e sua fala incompreensível.
O estrangeiro era sempre visto de forma estereotipada: o egípcio seria inconfiável, o frígio era covarde, o persa vivia no luxo decadente, o lídio era devasso, o cita era inculto e, assim por diante.
Os contatos com esses bárbaros, em vez de tornar o grego mais tolerante, serviam para reforçar o alto conceito que tinham de si mesmo, orgulhando-se por serem um povo que não tinha os defeitos que imputavam aos outros.

Meu pai, que não era grego, implicava com meu avô materno, que era espanhol, vivia no Brasil há mais de trinta anos e não falava uma palavra em português. O meu pai achava que os castelhanos tinham o rei na barriga e meu avô não falava português por pura arrogância. Meu avô não entendia o que papai falava e, este, sempre perdia a paciência com isso. "Não dá para falar com ele, meu pai dizia, é pura má vontade em me entender".
Mais tarde, no capítulo Linguística da cadeira de Português, quando estudei no Colégio Júlio de Castilhos, nos idos de 1958/59 e 60, percebi a injustiça que cometíamos com meu avô. Enquanto nosso idioma tem apenas cinco vogais (falamos de sons, não de letras). No português temos um "e" e um "o" abertos ao lado de um "e" e um "o" fechados, e usamos essas distinções em centenas de vocábulos, enquanto os espanhóis desconhecem essas vogais abertas. Além disso é mais fácil para a língua filha(português) entender a língua mãe(espanhol) do que o contrário. Logo, os diálogos entre meu pai e meu avô não eram parelhos, pois quem usa um sistema mais complexo (português) entende melhor quem usa um sistema mais simples (espanhol) mas o inverso não é verdadeiro. Quando percebi isso meu avô não estava mais conosco, não adiantando nada dizer ao meu pai para falar mais lentamente e desculpar as dificuldades do sogro dele, tendo em vista a inferioridade do sistema vocálico ao qual ele estava acostumado.

Pois aí está a mesma questão entre homem e mulher. O homem só percebe as palavras, enquanto a mulher lê também gestos, expressões faciais, linguagem corporal, e, em alguns casos, até pensamento.É como se os homens falassem com cinco vogais e as mulheres com vinte vogais, só que elas, como meu pai, não percebendo a descomunal desvantagem do sexo oposto, atribuem aos pobres homens uma má-vontade que na verdade eles não têm. Pior ainda quando elas resolvem se expressar numas dessas formas não verbais: os homens simplesmente não recebem a mensagem, reagem com indiferença, e elas ficam magoadas, ressentidas ou coisa pior. Por isso, como não deu para avisar meu pai, trato de avisar minhas filhas e netas: levem em conta as nossas limitações masculinas e falem conosco com mais paciência, de maneira mais pausada, mais explícita, usando mais palavras até, mas sem levantar a voz, porque surdos também não somos. Verão que podemos ser ótimos interlocutores, quando aparadas as diferenças linguísticas.

Pérolas da Mitologia - Elas preferem os tolos

No tempo em que os deuses do Olimpo ainda desciam à terra em busca do amor das belas mortais, Apolo tinha tudo para ser o mais cobiçado de todos os partidos. Além de ser a divindidade responsável pela cura das doenças e dos ferimentos, ele também presidia - sempre na companhia das Musas, suas encantadoras ajudantes - tudo o que se referia à música, ao canto e à poesia. Sua figura serena era a encarnação do equilíbrio harmonioso entre o intelecto e a beleza física. Os artistas sempre o representaram como um homem jovem, de porte atlético, com feições refinadas e um semblante inteligente - um verdadeiro modelo de beleza viril. Se acrescentarmos que, além de tudo isso, ele ainda era solteiro, fica difícil imaginar que alguma mulher, da mais remota à mais moderna, pudesse resistir a um homem assim.
Mas nem tudo foram rosas para Apolo, que foi rejeitado por mais de uma pretendida. O caso mais constrangedor foi o de Marpessa, uma princesa de extraordinária beleza. Ele estava tão apaixonado por ela que, numa atitude sem precedentes para um deus, pediu-a em casamento, quando ficou sabendo - aturdido - que um simples mortal, um tal de Idas, príncipe de um reino vizinho, também tinha entrado na disputa. Como era inevitável, os dois rivais um dia se defrontaram, primeiro com palavras, depois com os punhos. Apesar de desigual, a luta era terrível, obrigando Zeus a intervir para apartar os dois pretendentes. Que a moça decidisse com qual dos dois casaria. Para surpresa geral e escândalo de muitos, ela optou por Idas, alegando que ela não seria feliz ao lado de um deus tão cobiçado e tão célebre em toda a Grécia.
Apolo retornou cabisbaixo para o Olimpo, derrotado, inseguro, inaugurando o mote que os homens despeitados repetam até hoje quando se sentem preteridos ou trocados por alguém que consideram um rematado cretino: "É a velha queda que as mulheres têm pelos tolos!"

Os que usam essa idéia como consolo, costumam reforçá-la com o exemplo de tantos gênios e artistas maltratados por suas mulheres, apresentando terríveis exceções para reforçar a regra - daquelas que enfrentaram o desafio de terem tido um marido brilhante e criativo, muitas foram castigadas por sua ousadia, como lamentou Clara, mulher de André Malraux: "Aos poucos eu fui percebendo que viver ao lado dele era um presente magnífico que eu pagava dia a dia pelo meu próprio aniquilamento"."Eu não disse? É assim mesmo: elas não suportam o brilho!" exulta Apolo eternamente ressentido, enquanto por ali mesmo, Afrodite confortava alguma ninfa desiludida de amor com palavras muito semelhantes, cheias de amarga ironia: "Não chores, minha filha, pois não vale a pena: os homens sempre preferem as mais jovens e as mais magras!"

Pérolas da Mitologia - Onde a luz não chega


Os gregos nunca representavam Atena, a deusa da sabedoria, despida ou com roupas transparentes. Ao contrário, quando nasceu da cabeça de Zeus, o rei dos deuses, já era adulta e trajava uma armadura completa por cima da alva túnica. Era bela e atraente, mas fez ouvidos surdos às propostas de seus pretendentes, obtendo de seu pai a permissão para se manter virgem eternamente. Um dia, porém, quando se banhava numa fonte quase secreta, foi surpreendida pelo jovem Tirésias, que ficou extasiado pela sua nudez. A deusa, então, num gesto rápido, colocou as mãos sobre os olhos dele deixando-o irremediavelmente cego. Quando ficou sabendo que ele era filho de Cáriclo, sua ninfa favorita, era tarde demais para arrepender-se. Cáriclo suplicou-lhe que devolvesse a visão de Tirésias, mas Atena nada podia fazer pois esse castigo cruel não era idéia sua, mas era ditado por uma velha lei de Cronos, o pai dos deuses do Olimpo, que mandava punir assim todo mortal que visse o que não deveria ter visto. A deusa, porém, condoendo-se do jovem cego, deu-lhe o dom da profecia e forneceu-lhe um cajado com poderes mágicos, que o guiaria como se ele pudesse enxergar. Assim a mitologia explicava a origem do maior vidente da estória grega.
Mas havia outra versão, preferida por mim, para a cegueira do famoso adivinho. Dizia que um dia ele encontrara duas sepentes que se acasalavam e tentou matá-las com um golpe de seu cajado. No entanto feriu apenas a fêmea, e foi, por isso, transformado numa mulher, assim vivendo por sete anos, até que, encontrando o mesmo casal de cobras, feriu o macho desta feita, voltando assim a ser homem. Por isso, quando Zeus quis provar a Hera, sua esposa, que o prazer dela era muito mais intenso que o dele, os dois concordaram que não havia ninguém mais
adequado que Tirésias para encerrar aquela discussão. "Do prazer, o homem aproveita uma parte, enquanto a mulher aproveita três vezes três", respondeu ele com sinceridade - ao que Hera, sentindo-se traída, tirou-lhe a visão para sempre. Zeus, então, para compensar a cegueira, garantiu-lhe muitos séculos de vida, deu-lhe o dom da profecia e prometeu que ele conservaria sua lucidez mesmo no mundo dos mortos.

O aviso está bem claro, seja qual for a versão: a natureza feminina é um dos mistérios da vida que ninguém, homem ou mulher, irá jamais desvendar.