segunda-feira, 1 de março de 2010

Os Deuses e a Administração - Início

O Livro Os Deuses e a Administração, de Charles Handy , propõe uma associação interessante entre alguns modelos de administração e os deuses gregos. Esse post, inicia então uma série, onde mostraremos quais associações são essas. A fonte dos posts será o próprio livro e também um artigo apresentado da UFSC para a disciplina de Desenvolvimento Humano.

"Para os gregos, os deuses representavam características com as quais os humanos identificavam-se, adorando um ou mais deles de acordo com seus próprios desejos. Portanto, a religião representava os costumes do seu povo e não a adoração etérea e distante apregoada pelo cristianismo.


O autor Charles Handy (1991) explica na introdução de seu livro os Deuses da Administração que o uso desta analogia serve para “frisar um ponto muito importante, de que a administração não é uma ciência exata, mas antes um processo criativo e político que deve muito à cultura e à tradição prevalecentes naquele lugar e naquele momento”. Entretanto, existem certos padrões no comportamento das pessoas que podem ser identificados e servirem de apoio na decisão dos administradores, e o uso da mitologia representada pelos deuses Zeus, Apolo, Atena e Dionísio se propõe a identificar esses padrões relacionando-os com a representatividade cultural de cada um desses deuses e a filosofia administrativa adequada. Também o autor observa que, cada cultura ou deus não é única e nem pode ser classificada como boa ou ruim, e sim adequada ou inadequada para a organização ou para o funcionário.

Esta concepção pode ser chamada de Teoria da Adequação Cultural, onde não existe uma cultura ideal e a cultura certa para o propósito certo, sendo a sua validade consolidada pela experiência pessoal de cada funcionário, sem o que seria apenas mais uma teoria sem utilidade.

A primeira a ser analisada é a Cultura-de-Clube, representada pelo deus supremo do Olimpo, Zeus.

Conforme a mitologia grega, um deus deveria matar seu pai para assumir seu trono, assim como os pais deveriam matar seus filhos para evitar serem mortos por eles. Dessa maneira, Zeus nasceu já com a missão de sobreviver aos ataques de seu pai (Crono) e vingar seus irmãos primogênitos, devorados pelo pai. Já no primeiro confronto, Zeus conseguiu arrancar seus irmãos de dentro do pai e, vencida a batalha, dividiu seu poder com eles, sendo seu o campo dos céus, enquanto que o mar seria feudo de Posseidon e o mundo subterrâneo de Hades.


Zeus foi considerado o primeiro rei do Olimpo graças à sua força, mas é principalmente adorado por ser encantador com suas fraquezas quase humanas, onde a paixão e a infidelidade encontravam-se lado a lado com os poderes divinos, pois sendo deus do raio e do trovão, utilizava-os tanto na ira quanto na sedução em forma de chuva de ouro, disfarce como cisne, touro, etc., pois “Zeus representava a tradição patriarcal, o poder irracional mas muitas vezes benevolente, a impulsividade e o carisma” (Handy, 1991: 18).

Era soberano na Acrópole e no Império Romano surgiu com o nome de Júpiter, que também veio a ser o centro da vida na terra, presidindo no Foro Romano a vida civil e religiosa do maior império de todos os tempos.

A Cultura-de-Clube tem como figura a teia de aranha, que como todas as outras organizações tem sua cultura baseada em funções e produtos, cujas linhas se irradiam do centro, como um organograma tradicional. Entretanto, em organizações cuja cultura predominante tem essas características, as linhas da teia, que são as mais importantes, são as que envolvem a aranha no meio, sendo as linhas do poder e da influência que ficam menores quanto mais se distanciam do centro. Essa cultura é mais comumente encontrada em pequenas organizações empreendedoras e familiares, o que não significa a sua ausência em organizações de maior porte, onde o Zeus empreendedor aparece com destaque.

A rapidez das decisões aparece como uma das características mais marcantes desta cultura, onde a qualidade das decisões dependerá da competência de seu Zeus, sendo suas variáveis críticas a seleção e a sucessão e a empatia como o canal mais eficiente e rápido de comunicação. Sendo pouco dependente de documentação formal ou autoridade formal, os sentimentos de afinidade e confiança aparecem como elementos essenciais.

Por isso a seleção não obedece rígidos padrões, onde o nepotismo floresce com naturalidade e as pessoas que não se enquadram ou não possuem a empatia necessária com os outro membros do clube devem ser afastadas, pois a comunicação formal não é aceita, assim como o erro ocasionado pela falta de semelhança entre as idéias do grupo, fazendo com que todos mantenham o mesmo padrão de comportamento.

É o tipo de cultura que valoriza os funcionários, dando-lhes liberdade de ação e recompensas, sendo também uma cultura de destaque, pois o Zeus de uma grande organização é carismático e costuma ser referenciado por suas conquistas. No entanto o funcionário que não se enquadra neste ambiente, não tem propensão ou vontade de manter uma rede de amizades e relacionamentos úteis para a sua ascensão, não terá sucesso numa organização com esta cultura, onde o paternalismo e o culto do indivíduo, da propriedade e do poder pessoal podem não parecer muito justos e até parecer pouco popular e ultrapassado diante da idéia de oportunidades iguais para todos que permeia a gestão moderna.

Vale lembrar que a maioria das organizações tem em seu começo esta cultura como predominante, pois uma boa idéia e uma grande força de vontade marcou e marca o início de todo empreendimento."

Próximo post: Apolo e a Cultura de Função

2 comentários:

Fernando Christófaro Salgado disse...

Olá Cacau,

Como administrador gostei muito deste post. Desconhecia este livro e também me interessa bastante assuntos que envolvem os deuses gregos!

Aguardo o próximo post!

Uma boa semana pra ti!

Abraços,

Fernando C. Salgado.

Claudia Bins (Cacau) disse...

Que bom que gostou Fernando! O Livro é muito interessante, apesar de não ser encontrado facilmente. Mas nos próximos posts teremos um bom resumo sobre as analogias que o autor tece.

Obrigada pela visita e pelo comentário!

Abraço,

Claudia