quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Avesso do Bordado

O rei da Tessália, o jovem Admeto, tratava muito bem os súditos e aqueles que trabalhavam para ele. Foi sua sorte pois, sem que soubesse, o deus Apolo tomou lugar entre seus empregados. O deus ficou tão admirado com o bom tratamento que o rei lhe dispensava e aos demais, que resolveu recompensar aquela bondade toda, tornando-se seu protetor. Primeiro, ajudou Admeto a desposar a bela Alceste, princesa cuja mão era disputada por outros reis mais poderosos do que ele. Depois, prometeu-lhe que, quando chegasse sua hora de morrer, ele teria uma segunda chance neste mundo, podendo viver o mesmo número de anos que já tivesse vivido.
Admeto e Alceste experimentaram por alguns anos, as alegrias de um matrimônio feliz. Tiveram um casal de filhos que foram recebidos com grande júbilo pelos súditos, que idolatravam o casal real. Então, Admeto adoeceu repentinamente, tomado por uma enfermidade que parecia não ter cura. Pressentindo que ia morrer, invocou seu protetor Apolo. O deus o tranquiliozou, dizendo que a promessa estava de pé,
tudo estava acertado com a Morte. Esta, no entanto, exigia uma compensação: ela pouparia Admeto se alguém se oferecesse para morrer no lugar dele. Como era um rei muito benquisto, acharam que não haveria problema em satisfazer aquela condição.
Mas Apolo enganou-se: ninguém quis assumir o lugar do pobre rei enfermo, nem mesmo seu pai e sua mãe, que já eram bem velhinhos. Ao saber disso, a doce Alceste aprresentou-se como voluntária, alegando que não poderia mesmo, continuar vivendo depois que o marido morresse. Admeto chorou de gratidão, e suas lágrimas se misturaram com as dela, numa tocante cerimônia de adeus, que a Morte interrompeu, para levar a raínha. Quando o pai veio lhe dar os pesâmes, Admeto inconsolável, investiu contra ele acusando-o de egoista e insensível. O velho retrucou dizendo que gostava muito da vida para desperdiçar o pouco que lhe restava, e que egoista era ele e, ainda por cima covarde - por ter se deixado substituir pela mulher.
Aconteceu, na versão escrita por Eurípedes, que o invensível Hércules, que era amigo do casal, enfrentou corajosamente a Morte e conseguiu trazer a raínha de volta. Aquele desfecho surpreendente teria sido um final feliz? Eurípedes encerrou sua peça com uma nota perturbadora: Admeto ficou radiante, mas Alceste não emitiu umsa só palavra ao se reencontrar com o marido.
Uns dizem que ela estava muda de espanto com o que tinha visto no outro mundo. Sem dúvida era espanto, mas o motivo era bem outro: ao passar para o outro mundo, pode ver, pela vez primeira, o avesso de nossas vidas, e tinha compreendido que o amor e a morte, a generosidade e o egoismo, a coragem e a covardia se entrelaçam, inseparáveis, para formarem essa figura complexa, rica e imperfeita que é todo e qualquer ser humano.

5 comentários:

Cynthia Kremer disse...

Oi, Claudia! Nossa, seu blog é demais! Eu amo mitologia grega e nesse post você fala em Tessália, que por coincidência fica na região da cidade na qual eu "quase" nasci; Thessaloníki (tessalôcica), mas na hora "H" minha mãe ficou preocupada com a precariedade do lugar e resolveu voltar pra Hannover, onde eu nasci.
Vou voltar aqui com calma para ler tudo, super interessante e de muito bom gosto seu blog! Parabéns :)

Cynthia Kremer disse...

Oi, Claudia! Nossa, seu blog é demais! Eu amo mitologia grega e nesse post você fala em Tessália, que por coincidência fica na região da cidade na qual eu "quase" nasci; Thessaloníki (tessalôcica), mas na hora "H" minha mãe ficou preocupada com a precariedade do lugar e resolveu voltar pra Hannover, onde eu nasci.
Vou voltar aqui com calma para ler tudo, super interessante e de muito bom gosto seu blog! Parabéns :)

Cynthia Kremer disse...

Oi, Claudia! Nossa, seu blog é demais! Eu amo mitologia grega e nesse post você fala em Tessália, que por coincidência fica na região da cidade na qual eu "quase" nasci; Thessaloníki (tessalôcica), mas na hora "H" minha mãe ficou preocupada com a precariedade do lugar e resolveu voltar pra Hannover, onde eu nasci.
Vou voltar aqui com calma para ler tudo, super interessante e de muito bom gosto seu blog! Parabéns :)

Claudia Bins (Cacau) disse...

Oi Cynthia,

Que bom que você gostou!
Apareça sempre, seus comentários são muito bem-vindos.

Legal, você parece ser uma "cidadã do mundo"! Se gosta de viajar, apareça no outro blog também: www.mosaicosdosul.blogspot.com

Abraço,

Claudia

Hassan disse...

lindo lindo lindo,
essa mitologia me surpreende cada vez mais, apaixonado estou.
obrigado por trazer esses textos tão belos.

agradecido,
Hassan